





Há centenas de anos o que é considerado arte vem alimentando, influenciando e espelhando as sociedades. Uma obra ao ser produzida, por mais bela que seja, nunca deixa de lado a angústia e a dor como elementos essenciais para sua concepção, demonstrando que o poético para ser gerado é muito mais prosaico do que imagina-se. Um filme que representa muito bem essas relações conturbadas não só de um artista, mas também de todos que o cercam com a arte é o inglês Moça Com Brinco de Pérola, de 2003. Ao primeiro contato, supõe-se que a película descreve apenas sobre a criação da famosa obra do pintor holandês Johannes Vermeer, no século XVII. Com o desenvolver da trama são desvelados os elos entre os personagens e a pintura.
Quando se fala em relação com a arte, uma das mais significativas, certamente, é a do autor. Mesmo que na recepção, muitas vezes, a intenção original se perca, é ele quem vai dar o tom da mensagem. Em cima desse pressuposto, o Vermeer, interpretado por Colin Firth deixa claro um certo enfado com sua própria vida. Utilizando-se da arte como forma de canalizar quase todas as suas energias, suas obras para serem concluídas passavam por um longo processo de tentativa e execução, a despeito de quem as encomendasse, já que os clientes esperavam por muito tempo para que vissem as obras em suas nobres residências. Como se não bastasse isso, o artista não só não dava preferência pela representação de seus mecenas, como apreciava, na verdade, retratar empregados em atitudes comuns. Tudo isso, seguido de um perfeccionismo científico, primando pelo melhor jogo de luz e sombra que pudesse alcançar, a fim de apurar os estudos sobre perspectiva em suas obras. Antes de agradar quem quer que fosse, os quadros do pintor tinham de agradar a ele próprio, como se dela, dependesse sua energia vital.
No filme, não é apenas o artista quem sobrevive das obras, mas também sua extensa família. A partir disso, a sogra de Vermeer, respeita a arte do genro que poderia ser qualquer outro ofício desde que trouxesse dividendos para casa. Por vezes, nota-se um certo desdém pelo processo metódico e demorado, na ânsia de poder comercializar logo as produções do autor. Em função do paradoxo entre a tamanha lentidão na elaboração de seus quadros e a velocidade em que aumentava sua família (teve quinze filhos na vida real), o artista morreu decadente e endividado.
Quando a arte ocupa tanto espaço na vida de alguém, muitas vezes, um casamento pode afundar e o cônjuge se sentir relegado a segundo plano. Assim, foi retratada a esposa de Vermeer no filme, que via as obras do pintor como se fossem concorrentes. A arte seria uma amante com quem não poderia disputar a atenção do marido. Pior ainda, ela também dependia da amante deste para sustentar os filhos e satisfazer os desejos materiais. Quando os objetos a serem retratados são outras mulheres, especialmente Griet (Scarlett Bola Da Vez Johansson), a moça do brinco de pérola, a situação fica quase insustentável. Se Catharina vivesse nos dias de hoje, seria recomendável que ela construísse seu próprio mundo com menos frivolidades e descobrisse sua própria arte, em favor de sua saúde e de seu casamento.
A sobrevivência através da arte propõe parcerias nem sempre agradáveis. Desta forma, o elo entre Vermeer e o colecionador satisfaz, na medida que as produções resultantes são esteticamente reconhecidas. No entanto, no que concerne a razão dessas encomendas, reina a necessidade de poder. Ao que parece, o mecenas tem uma relação muito mais erótica com seus quadros e objetos pintados do que propriamente um apreço pela arte.
Dentre as cinco personagens principais do filme, definitivamente as que tem relação mais imaculada com a arte são o pintor e aquela que dá nome ao filme. As obras de Vermeer repercutem em Griet, de maneira a representar uma das mais importantes funções que as obras de arte podem ter: a de mudar paradigmas, despertar para novos horizontes, provocar abertura de perspectiva. Assim, a empregada que, teoricamente,possui menos referência educacional e de convivência para a construção do gosto artístico, torna-se aquela com o olhar mais aguçado para as obras do pintor, revezando durante todo o filme entre discípula e musa de Vermeer.
Momentos de catarse e inspiração para a vida cotidiana (a minha, claro). Mera tentativa de colocar ordem no caos dos pensamentos abrindo passagem para divagações e personalidades ansiosas pela multiplicação.