segunda-feira, 23 de março de 2009



Cinema na Cultura Copyleft

Desde a criação no fim do século XIX, o Cinema já passou por várias mudanças. Do cinema mudo no início, ao cinema sonoro nos anos 20 e 30. Anos 30 aos 60, surge a cor, os diálogos, a tela panorâmica... A partir dos anos 70, a crise no cinema como um todo, afetando o sistema, a indústria. Da consagração dos autores/diretores, da nova Hollywood até a concorrência da TV, nunca o Cinema passou por um momento como o de hoje. Nada é tão assustador para os produtores intelectuais do que a perda de controle dos direitos autorais ( estabelecidos no Ocidente através da Convenção de Berna em 1886, os direitos autorais foram integrados ao mercado global através do Acordo de 1994 da Organização Mundial do Comércio) a partir dos acessos sem ônus das obras pela Internet. A verdade é que os downloads gratuitos vem deixando os participantes da indústria cinematográfica de cabelos em pé e mãos atadas.

É claro que diante do potencial da Internet e o advento da banda larga, os grandes estúdios de Hollywood já haviam pensado em inúmeras possibilidades de distribuição paga dos filmes pela rede. É possível citar os sites de download Movielink e CinemaNow, parceiros de produtoras americanas, que vendem as películas desde 2006 pela net ao mesmo tempo que são lançadas em DVD.

O fato é que a Cibercultura – a cultura contemporânea com definições de sociabilidade e navegação pela Internet – reproduz os comportamentos humanos da vida real. No dia a dia, as pessoas se sentem na vantagem quando compram algo na promoção ou quando não pagam nada por um produto. Logo, na rede com a imensa variedade de sites que disponibilizam estes lançamentos gratuitamente em boa qualidade, por que um internauta vai pagar um preço que ainda está acima, na relação custo e benefício, do poder aquisitivo da média mundial? Talvez por senso de justiça do consumidor, caso o pagamento não pese tanto no orçamento no fim do mês. De qualquer maneira, enquanto não se reavaliar os valores cobrados pelos produtos culturais, os acessos gratuitos on line a todo tipo de arte tendem a aumentar definitivamente.

Apesar de toda a polêmica relativa a imoralidade e ilegalidade dos downloads gratuitos, um aspecto deve ser evidenciado. A facilidade com que se faz download de filmes é a acessibilidade da cultura para aqueles que não tem recursos para acompanhar os lançamentos mundiais de filmes e séries. Esse fenômeno cibernético reproduz o mecanismo de produção intelectual que é o gerador de todas as grandes obras da humanidade. Para se produzir arte e cultura é preciso consumir de alguma forma conteúdos inspiradores e transformadores de mentes capazes de conceber outros conteúdos. Segundo André Lemos, doutor em Sociologia pela Sorbonne (disponível em http://www.irece.faced.ufba.br/twiki/pub/GEC/AndreLemos/copyleft.pdf), toda cultura é e sempre foi copyleft. Conceito originado no lançamento da plataforma do Sistema Operacional Linux em resposta ao Sistema Unix. Copyleft seria o oposto ao copyright dos direitos autorais com o objetivo de tornar a informação livre e acessível ao maior número de pessoas, desde que citasse a fonte original. O conceito garante ainda que qualquer obra sob sua chancela esteja livre para ser reproduzida indiscriminadamente e de graça. O autor fala ainda no mesmo artigo que a cultura copyright (de massa) é detentora do controle dos meios de comunicação, fonte de poder político, de prestígio e influência.
Essa filosofia do fácil acesso trabalha ainda com outros conceitos que contribuem para a Cultura Livre. O Creative Commons também vem agregar forças a este movimento da troca de informação que propicia novos conhecimentos. Este é um projeto de licenciamento baseado integralmente na legislação vigente sobre os direitos autorais. As licenças do Creative Commons permitem que criadores intelectuais possam gerenciar diretamente os seus direitos, autorizando à coletividade alguns usos sobre sua criação e vetando outros. Na licença mais utilizada, a obra pode circular legalmente, mas quando, por exemplo, toca no rádio ou na televisão, os direitos autorais devem ser normalmente recolhidos.

Considerando que o crescente acesso gratuito aos conteúdos culturais é um por vir inevitável, sai ganhando aquele que souber compartilhar o conhecimento para produzir mais. O lado positivo para aqueles que outrora se beneficiavam com os direitos autorais é a ampla divulgação que a Internet é capaz de fazer dos autores das obras. E é esse o gancho, se assim pode-se dizer, o autor será sempre único. O produto veio para agregar informação à dialética do conhecimento e abrir portas, mas um criador com versatilidade não sairá prejudicado se suas obras forem amplamente divulgadas de forma gratuita. Pelo contrário, perceberá uma vasta gama de oportunidades nesta era multimídia que está se estabelecendo. A difusão de obras pela Internet ajuda muito a distribuição de obras de autores mais jovens ou sem recursos e que de outra forma jamais seriam acessíveis ao grande público. A difusão também permite o acesso a obras raras, fora de circulação comercial. Há exemplos de filmes que não existem no Brasil em DVD, em VHS, em canais de TV a cabo nem de TV aberta.

O cinema, assim como as outras artes consagradas; teatro, arquitetura, pintura, escultura, literatura, música e dança, é um instrumento para expandir a riqueza de experiências, estabelecendo abertura de perspectiva para aqueles com pouco acesso ao mundo da informação. Diante disso, o universo de livre circulação estabelecido pelos downloads da Cibercultura só vem corroborar uma nova filosofia de desenvolvimento humano, profissional e intelectual pretendida no Século XXI.

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